Fenologia do Feijoeiro Comum

 em Especialidade, Feijão, Fenologia, Fisiologia, Nutrição

 

O feijão, espécie Phaseolus vulgaris, é uma planta de ciclo C3, pertencente a família Fabácea e constitue a alimentação básica da população brasileira. Para um manejo adequado à uma boa produção, é necessário conhecer a fenologia da planta: uma escala baseada nas mudanças no aspecto visual (morfológico) relacionadas aos processos fisiológicos que estão ocorrendo em conjunto. Essa escala permite maior precisão nas decisões e ações tomadas quando comparada ao manejo por dias após emergência, pois a duração de cada fase em dias pode variar entre cultivares e também devido à fatores como temperatura, pluviosidade e radição.
A escala fenológica proposta por GEPTS & FERNÁNDEZ (1982) e citada por FANCELLI (1990) é a mais utilizada. O ciclo é dividido em 10 estádios denominados por uma letra e um número, a letra V se refere à fase vegetativa e a letra R, à reprodutiva. A numeração indica a ordem de ocorrência.

 

 

Estádio V0:

Refere-se à germinação, ao absorver água em quantidade adequada, inicia-se o processo. Primeiro ocorre a emissão da radícula seguida pelo alongamento do hipocótilo até o surgimento dos cotilédones na superfície do solo. Uma semeadura bem feita é essêncial para o sucesso dessa etapa, a profundidade de deposição das sementes deve ser de 3 a 5 cm e a temperatura do solo deve estar adequada (temperaturas próximas a 25 ºC favorecem a taxa de germinação, já as inferiores a 12 ºC reduzem significativamente). Os três primeiros dias após início de germinação são os mais críticos quanto à infecção por patógenos.

Estádio V1:

O que caracteriza essa fase é o aparecimento dos cotilédones ao nível do solo. Nesse momento ocorre o desdobramento da “alça” do hipocótilo seguido do alongamento do epicótilo até a expansão das folhas primárias. Nessa fase é possível analizar de maneira confiável a qualidade da semeadura, avaliando o estande e uniformidade de emergência.

Estádio V2:

Estádio caracterizado pela expansão plena das folhas primárias (unifolioladas, sede inicial de conversão de energia) , a velocidade da abertura bem como o tamanho das folhas são fatores importantes para o bom desenvolvimento da cultura. Semeadura profunda, sementes pouco vigorosas, ataque de doenças e pragas podem resultar em folhas pequenas e mal formadas.

Estádio V3:

Tem início quando a primeira folha trifoliolada encontra-se em posição horizontal, totalmente desdobrada. Nessa fase acontece a exaustão intensa dos cotilédones, que sofrem abscisão, a planta assim depende diretamente dos nutrientes presentes no solo. O período entre V1 e V3 apresenta a maior tolerância à estresses hídricos e à oscilações de temperatura (ambos moderados), há acelerado crescimento radicular. A planta nesse estádio é altamente sensível à aplicação de produtos com potencial fitotóxico.

Estádio V4:

É caracterizado pela expansão completa da terceira folha trifoliolada, as plantas aceleram a emissão de folhas e o crescimento. Nessa fase o déficit hídrico pode reduzir consideravelmente a área foliar e consequentemente a produtividade, porém o feijoeiro também apresenta sensibilidade ao excesso de água, devendo haver um fornecimento adequado em caso de irrigação.
Nesse estádio é recomendado a adubação de cobertura nitrogenada e potássica, abaixo a figura demonstra a marcha de absorção dos macronutrientes pelo feijoeiro.

Estádio R5:

Inicia-se com o aparecimento dos primeiros botões florais. É citada por diversos autores como uma das fases mais críticas ao deficit hídrico ( provoca perda de 15 a 37% dependendo da intensidade). A temperatura influência no número de flores e no sucesso de fertilização ( é prejudicial acima de 35ºC e inferior a 12ºC). É um momento crítico a aplicação de produtos do grupo dos triazóis.

Estádio R6:

É caracterizado pela abertura das flores. O feijoeiro é uma planta de autofecundação, produz grande número de flores porém apresenta alta queda natural (40 a 75% a depender das condições climáticas). As flores são sensíveis à danos mecânicos e à produtos químicos, devem ser utilizados com cautela fertilizantes e defensivos em geral.
Em variedades de crescimento determinado (tipo I) ocorre a paralisação da emissão de folhas. O feijoeiro de crescimento indeterminado (tipo II e III) deverá apresentar no início do florescimento, 16 a 20 folhas trifolioladas fotossintéticamente ativas (Fancelli, 1995).

Estádio R7:

Refere-se ao aparecimento das primeiras vagens. Temperatura notura elevada (>24ºC) reduz a retenção e formação de vagens, durante o dia temperaturas >35ºC contribue para alta taxa de abortamento de vagens.
Déficit hídrico diminue a produção reduzindo a fotossíntese, retenção e desenvolvimento das vagens (redução no metabolismo). O manejo deve ser voltado a manutenção do equilíbrio entre as estruturas (folhas em relação às flores e vagens).
Na literatura há evidências de resposta à aplicação foliar de nitrogênio, fósforo e potássio (devem ser empregados somente quando não há um número excessivo de folhas).

Estádio R8:

Estádio de início do enchimento da primeira vagem. Nas variedades dos tipos II e III a emissão de folhas é paralisada. A partir deste estádio, a redução da área foliar (por pragas e doenças) acarreta falhas no enchimento de vagens, grãos pequenos e leves.
A manutenção de área foliar até o final do ciclo reverte maior potencial produtivo, a aplicação de produtos do grupo dos triazois contribue para alongamento do ciclo.
No fim desta fase há o começo da pigmentação das sementes e posteriormente da vagens.

Estádio R9:

Esse estadio é caracterizado pela mudança na coloração das vagens, passando de verde para amarelada ou pigmentada. É acelerado o processo de senescência natural. É desejável ausênia ou baixa disponibilidade de água. O feijão não tolera atraso na colheita, vagens podem abrir ou as sementes podem germinar no interior das vagens.

 

Referências bibliográficas:

BRANDES, D.; VIEIRA, C.; MAESTRI, M.; GOMES, F.R. Efeitos da população de plantas e da época de plantio no crescimento do feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.).III. Interceptação de luz e eficiência de conversão da energia solar. Experientiae, Viçosa, 15(l):23-30.

CAIXETA, T.J. Irrigação do feijoeiro. Inf.. Agropecuário, Belo Horizonte, 4(46): 36-40, 1978.

FANCELLI, A.L. Instruções básicas para a cultura do feijão. Piracicaba, ESALQ/USP, Departamento de Agricultura, 1988. 19p.

FANCELLI, A.L. Cultura do feijão. Piracicaba, FEALQ/ESALQ/USP,1987.138 p.

FANCELLI, A.L. Feijão irrigado. Piracicaba, FEALQ/ESALQ/USP, 1992. 177 p.

FANCELLI, A.L. & D.DOURADO-NETO.. Tecnologia da Produção do Feijão Irrigado. Piracicaba, FEALQ/ESALQ/USP. Publique. 1997. 182 p.10

FANCELLI, A.L & D.DOURADO-NETO. Feijão irrigado: Estratégias básicas de manejo. Piracicaba, FEALQ/ESALQ/USP, Publique.1999. 194 p.

FANCELLI, A.L. & D.DOURADO-NETO Sistemas de produção de feijão irrigado. Piracicaba, FEALQ/ESALQ/USP, 2001. 211 p.

FANCELLI, A.L. FEIJÃO: Produção e Sustentabilidade. Piracicaba, FEALQ/ESALQ/USP, 2013. 180 p.

GEPTS, P. & FERNÁNDEZ, F. Etapas de desarrollo de la planta de frijol comum (Phaseolus vulgaris L.). Cali, Colombia, CIAT, 1982. 10p.(mimeografado).

HOSTALÁCIO, S. & VÁLIO, I.F.M. Desenvolvimento de plantas de feijão cv. Goiano Precoce, em diferentes regimes de irrigação. Pesq. Agropec. Bras., Brasília, 19(2): 211-8, 1984. MARIOT, E.J. Ecofisiologia do feijoeiro. In: 0 feijão no Paraná. Londrina, IAPAR, 1989. p.25-42. (Circular Técnica, 23).

 

Disponibilizamos também o arquivo PDF desse artigo, clique aqui para fazer o download do material.
 

Postagens Recentes