Misturas de tanque: como minimizar problemas

Introdução
Até meados da década de 1980 eram comuns informações técnicas dirigidas à engenheiros agrônomos e produtores a respeito de misturas em tanque, visando, em uma aplicação, resolver problemas nutricionais, com pragas, doenças e plantas daninhas (GAZZIERO, 2015). Em abril de 1985, todas as recomendações sobre misturas em tanque foram retiradas das instruções de uso (LIMA, 1997). Desde então, tem-se o entendimento de que a mistura em tanque não era mais permitida. Inúmeras ações, moções, reuniões e debates foram realizados com o intuito de normatizar o assunto, como por exemplo a portaria n° 67, publicada em 1995 (BRASIL, 1995), que criava a possibilidade de que as próprias empresas incluíssem nos registros as recomendações de mistura em tanque, como faz os EUA, onde na própria bula dos produtos há instruções sobre a ordem de mistura, quais produtos podem ser misturados e quais não podem. O Canadá também segue este exemplo, proibindo certas misturas e indicando os problemas resultantes de uma mistura incorreta (Teixeira, 2017). Outros países como no Reino Unido também tomam estas medidas. No entanto, no Brasil, esta portaria foi revogada em 2002 pela Instrução Normativa n° 46 (BRASIL, 2002a). Através de várias discussões, levantou-se o questionamento se, de fato, a prática era proibida. Para AENDA (AENDA – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS DEFENSIVOS GENÉRICOS, 2011) a mistura não é proibida e pode ser praticada pelo agricultor, sob sua própria responsabilidade. No entanto, a receita de qualquer defensivo agrícola só pode ser feita por um profissional legalmente habilitado e os produtos só podem ser prescritos se em concordância com as recomendações da bula. Assim, mesmo que a mistura em tanque não seja proibida, não pode ser prescrita em um receituário agronômico (BRASIL, 2002b).

Mesmo com todas essas dúvidas sobre a legalidade da mistura em tanque, de acordo com a pesquisa de Grazziero (GAZZIERO, 2015), em 97% das propriedades rurais é feita a prática de mistura em tanque, como pode ser observado no gráfico abaixo.

Fonte: (GAZZIERO, 2015)

Frequentemente são misturados de 2 a 5 produtos, mas no questionário feito por Grazziero, aplicações com mais de 7 produtos também foram registradas, sendo feitas ou diretamente no tanque de pulverização, ou são colocados no tanque depois de uma pré mistura (GAZZIERO, 2015).

Vantagens e Desvantagens
A mistura em tanque é uma prática tão comum pois trás várias vantagens ao produtor, como a redução de custos pela economia de tempo, mão de obra, água e óleo diesel, além de proporcionar agilidade nas operações, facilidade de manejo da cultura e diminuição da compactação do solo. Pode auxiliar na implementação de estratégias para evitar resistência dos alvos aos modos de ação utilizados e diminui a exposição dos aplicadores aos produtos (GAZZIERO, 2015). Por outro lado, são necessários conhecimentos sobre os possíveis efeitos antagônicos dos produtos (que pode resultar na neutralização de um ou mais componentes através de oxidação, redução, hidrólise entre outros) e sobre as características dos produtos formulados, a fim de evitar incompatibilidade física (como formação de precipitado, aumento de viscosidade, entre outros). Além destes efeitos, a mistura pode ocasionar em um sinergismo, potencializando a ação de um ou mais produtos, o que pode ser prejudicial para as plantas cultivadas (APROSOJA, 2017).

Como minimizar os problemas
Para aproveitar as vantagens e reduzir as desvantagens, o produtor precisa de conhecimentos sobre as interações entre os produtos e sobre a ordem de mistura para evitar incompatibilidades. A ordem certa de mistura, baseada na formulação dos produtos, pode ser observada na imagem a seguir:


Fonte: (APROSOJA, 2017)

Para testar a compatibilidade física e química dos produtos, o produtor pode realizar o teste conhecido como “teste da garrafa”, que consiste em realizar a mistura dos produtos em uma escala reduzida, simulando a sequencia de misturas e a proporção dos produtos e da água exatamente como deveria acontecer no tanque de pulverização.

Para maiores conclusões, o produtor também pode utilizar esta mistura em escala reduzida em uma aplicação por costal também em escala reduzida, para verificar efeitos sinérgicos ou antagônicos no controle, assim criando seu próprio banco de dados sobre as interações entre os produtos.
Já existe conhecimento sobre misturas que devem ser evitadas, como por exemplo (APROSOJA, 2017):
1ª) Produtos que contenham enxofre com as formulações de base oleosa
2ª) Mistura direta de formulações sólidas com formulações oleosas
3ª) A água da calda deve estar livre de argila e matéria orgânica, que podem neutralizar alguns produtos
4ª) Evitar misturas complexas para aplicações em volumes de calda muito baixo

Conclusão
Os métodos que os produtores podem fazer para minimizar os problemas foram descritos ao longo deste informativo. O que resta fazer é esperar pela regulamentação das misturas em tanque, que implicarão na autorização de misturas em receituário agronômico, instruções sobre misturas na bula de cada produto e publicação dos dados de eficiência de misturas.

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Referências bibliográficas:

AENDA – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS DEFENSIVOS GENÉRICOS. (2011). Mistura em tanque.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria n. 67 de 30 de maio de 1995. Regulamenta o uso das misturas de agrotóxicos em tanque. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1995.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa n. 46, de 24 de julho de 2002. Determina às empresas titulares de registros de agrotóxicos a retirada das indicações de misturas em tanque dos rótulos e bulas de seus agrotóxicos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2002a.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Decreto 4074 que regulamenta a Lei 7802 de 11 de julho de 1989 que dispõe sobre agrotóxicos, seus componentes e afins e de outras providencias. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2002b.
APROSOJA. (27 de Abril de 2017). Tecnologia de aplicação Mistura em Tanque. Piracicaba, São Paulo, Brasil.
GAZZIERO, D. (2015). Misturas de agrotóxicos em tanque nas propriedades agrícolas do. Planta Daninha, 33.
LIMA, L. C. (1997). Produtos fitossanitários: misturas em tanque. Ocepar/Coodetec/Associação Nacional de Defesa Vegetal, Cascavel.
Teixeira, M. A. (27 de Abril de 2017). Ações do Ministério da Agricultura para o aprimoramento da mistura em tanque. Piracicaba, São Paulo, Brasil.

 

 

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